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o fim da utopia

Outubro 6, 2008 · Deixe um comentário

“Berlin Ocidental, verão de 1967. Podia ser outro lugar, outro momento. Mas nossa história começa aqui. O filósofo Herbert Marcuse vai falar. Ele vive nos Estados Unidos. Veio especialmente para uma série de conferências. Título de seu trabalho: O Fim da Utopia.

A jovem platéia está intrigada. O que Marcuse está querendo dizer com isto? O filósofo começa explicando as razões do título. Utopia é um conjunto de idéias de transformação social, tidas como impossíveis. Idéias que, normalmente, prolongam uma série de condições existentes na construção de um mundo melhor.

Marcuse não queria falar de coisas impossíveis, muito menos prolongar o existente. Veio para pregar uma ruptura completa; gerando o fim da utopia.

“Todas as forças materiais e intelectuais que podem contribuir para realizar uma sociedade livre estão presentes no mundo de hoje. Se não atuam é porque a sociedade se mobiliza em peso contra a possibilidade de sua própria liberação. Mas uma situação desse tipo não é suficiente para chamar de utopia um projeto de transformação”.

Em seguida, o velho filósofo falou algo que é bastante conhecido dos teóricos do III Mundo. Não há um sábio, disse ele, mesmo um sábio burguês, que seja capaz de negar a evidência de que é possível acabar com a fome e a miséria através das forças atuais de produção. Isto só não acontece por causa da desorganização sócio-política do Planeta.

Estavam todos de acordo até aí. Marcuse avançou entretanto sua idéia nova que parece ter trazido especialmente para este momento. As verdadeiras mudanças só aconteceriam se houvesse a liberação de uma nova dimensão humana, se surgisse uma nova antropologia cujo objetivo fosse o de transformar as necessidades. Uma delas, vital, é a necessidade de liberdade e tudo o que ela implica.

Ao longo de quatro dias de discussão, Marcuse insistiria nesse tema. Parecia preocupado em precisar o que significa uma nova necessidade. O desenvolvimento das forças produtivas atingira tal nível que estava a exigir o despertar de novas necessidades à altura do momento. Mas quais seriam elas?

Quem acompanhasse toda a exposição não teria dificuldade em compreender o filósofo. Num primeiro lance, as novas necessidades poderiam ser entendidas como a simples negação dos valores que sustentam o sistema. Negação do princípio da produtividade, da competição, do conformismo.

No lugar desses valores carcomidos, entrariam a necessidade de paz, de tranqüilidade, de estar só consigo mesmo (ou com as pessoas amadas), de beleza, felicidade gratuita e de uma esfera particular.

Essas novas necessidades levariam a uma transformação total do mundo técnico. Cidades seriam reconstruídas, a natureza restaurada. O desvario da industrialização revisto de ponta a ponta. Atenção, advertia o filósofo: não se trata de uma regressão romântica a uma época anterior à técnica. Os benefícios da técnica só ficarão realmente visíveis quando se livrarem do capitalismo.

Faltava dizer que o socialismo existente no mundo não tinha realizado este projeto. Marcuse mostrou que a idéia do socialismo estava diretamente ligada ao desenvolvimento das forças produtivas e ao aumento da produtividade do trabalho. No instante em que surgiu, isto era justificável e necessário. Mas agora, não era mais essa a diferença entre uma sociedade livre e uma sociedade oprimida. Com pena de parecer ridículo, era preciso ter coragem para afirmar que a característica distinta de um mundo novo seria a dimensão estético-erótica – fórmula que sintetiza a convergência da técnica e da arte, do trabalho e do jogo.

Marcuse concluiu sua exposição afirmando que era preciso correr o risco de redefinir a liberdade de tal maneira que não pudesse ser confundida com nada do que aconteceu até agora. O novo motor da sociedade, já satisfeita materialmente, seriam aspirações liberadas, necessidades instintivas, inclinações espontâneas do ser humano.

E como essas coisas são utópicas apenas aparentemente, pois, no fundo, significam a negação histórico-social da ordem estabelecida, o filósofo conclamou todos a participarem de uma oposição realista e pragmática, livre de todo derrotismo, pois não era possível trair a liberdade emergente”.

[Trecho de "A Vida Alternativa: uma revolução do dia a dia", de Fernando Gabeira, publicado pela LP&M em 1985]

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I got no crush, but…

Janeiro 31, 2008 · Deixe um comentário

 

Como diriam os Beatles: “It’s been a hard days night”. Os 8 anos da administração Bush foram, sem dúvida, os mais tenebrosos da história recente dos EUA. Não sou o maior “expert” em história – que dirá, história americana! -, mas creio que nem a administração Nixon foi tão desastrosa for “the home of braves”. A passagem de Bush ficará marcada pelo idiotia daquela figura tragicômica tão bem caricaturada nos filmes de Michael Moore. Triste para o país mais poderoso do planeta; e um pesadelo para o resto do mundo, forçado a conviver com uma ameaça diária, ao acordar todo dia sabendo um texano pra lá de imbecil tem nas mãos (ainda!) poderio militar capaz de destruir a terra algumas centenas de vezes.

Quando já parecíamos todos aliviados com a perspectiva de um mal menor – a possível vitória de Hillary Clinton – eis que surge Obama. A princípio, a pergunta fundamental que me fiz foi: Who the hell is this guy?! A resposta foi simples: ele é “o cara”. A cartinha da Caroline Kennedy pro New York Times só fez confirmar o que se tornava mais e mais óbvio para o resto do mundo à medida que a cobertura das eleições norte-americanas crescia: Obama é a possibilidade de redenção dos yankees, “the chosen one” que há muito todos esperavam.

Hillary não representava uma nova esperança, apenas a volta do mediano. Depois de Bush, qualquer ser humano com idade mental condizente com seus anos de estadia na terra já seria uma melhora considerável, digna de aplausos. Sendo democrata então – voilá!— teríamos motivos para sorrir outra vez! Mas Hillary não seria um avanço real, apenas a continuidade do que fora interrompido pela “idade das trevas” encarnada em Bush. Hillary seria apenas mais um WASP no poder, que se diferenciaria de Bush, essencialmente, pelo fato de possuir neurônios.

Obama, por outro lado, ao surgir “pro mundo”, era incompreensível. Como se não bastasse o fato de ser negro, tinha um nome árabe demais para um norte-americano pós-11 de setembro. Mas aí as coisas foram tomando forma. Discursos consistentes, um carisma de matar, capacidade de articulação e uma predisposição – deveras sedutora – para o diálogo internacional. Era isso! Um cara capaz de trazer para a política a fluidez complexa que os afro-americanos deram, por exemplo, à música. Obama parece o único capaz de improvisar e entrar no ritmo do mundo; e o mundo precisa que os Estados Unidos larguem a batuta, afinal, eles nunca tiveram muita vocação para a música clássica.

Ao contrário de Colin Powell, Condoleezza Rice e Michael Jackson, Obama não é apenas mais um negro branqueado. Ele é uma espécie de Black Panther amadurecido, um Luther King secularizado, um Malcolm X psicanalisado. O cara parece ter percorrido a trilha aberta por mártires e artistas negros ao longo das décadas para chegar lá sem a muleta das posturas afirmativas ou síndrome de Estocolmo que tanto aproxima os negros “bem sucedidos” do “WASP way of life”. Obama guarda um ar de naturalidade e isso, em política, é algo único. É isso: Obama parece surgir como um caminho natural, uma espécie de dialética evolutiva da sociedade norte-americana: é a síntese, é a síntese!

Não sei se Obama vai ganhar, mas o fato de ter “surgido” pro mundo já é “um passo gigantesco para a humanidade”. Esperemos a “Super Terça” pra ver no que vai dar. Hillary tem o peso de seu sobrenome e a cor do conservadorismo. Resta torcer para que os norte-americanos sejam braves o suficiente para fazer essa aposta.

 A carga simbólica

“Obama chegou às manchetes quando foi eleito o primeiro presidente negro do Harvard Law Review, talvez a mais prestigiada publicação jurídica do país. “Para nós, foi realmente uma grande comemoração, um verdadeiro marco”, diz Earl Martin Phalen, um colega de classe negro. “Mas aquilo não teve o mesmo significado para ele…” Ele não assumiu uma atitude de bater no peito de orgulho, algo como “olhe pra mim, sou o primeiro”. Ele estava ciente do significado histórico, mas compreendia que havia responsabilidade”.Do perfil de Obama, publicado no G1

Creio que manter essa postura é o grande desafio para líderes trazem consigo cargas simbólicas gigantescas. Lula, de certa maneira, parece ter sucumbido ao peso dessa responsabilidade. Se Obama conseguir lidar bem com isso, tem tudo para figurar ao lado dos nomes mais importantes da história política mundial.

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