O Cheiro do Ralo é uma história pra se acompanhar de estômago embrulhado – ou pra aceitar o inevitável que é a podridão humana. Aceitar e fazer piada. Rir das próprias mazelas de um jeito bem cômodo: vendo-as projetadas no outro, na tela. O cheiro do ralo vem do banheiro, o palácio da intimidade, as quatro paredes que ligam o homem às próprias entranhas, àquilo que é motivo de vergonha, àquilo que se tenta esconder, àquilo que fede, àquilo que é podre. O cheiro do ralo denuncia a podridão que vem de dentro, a podridão dos nossos infernos, dos nossos demônios. Dialoga com o Amarelo Manga das “feridas purulentas”, ocupa-se de mostrar o avesso do humano, expor as vísceras para o deleite dos despudorados e para o nojo dos cidadãos de bom gosto. O Cheiro do Ralo manda o bom gosto à merda.
Mas o Cheiro do Ralo não vai à merda. Se o faz, serve-se de luvas. Há algo no filme que impede que a conexão entre o espectador (bem comportado) e os tipos da tela (podres) aconteça a ponto de promover o encontro efetivo da platéia com seus próprios ralos. O riso – bem administrado – é a maior prova disso. É ele o maior responsável por garantir essa distância e suavizar o caráter perturbador da história. Quem fede, quem apodrece, quem degenera é sempre o outro. É isso que torna o filme palatável. Um detalhe, uma dose a mais de escatologia, e o filme seria demasiadamente pesado, difícil de engolir.
***
Quanto à história, O Cheiro do Ralo remete a uma corrente estilística cada vez mais central na literatura brasileira. Corrente que, aos poucos, começa a desaguar no cinema. Falo dessa turma de escritores urbanos que muitos definem, mais ou menos precipitadamente, como discípulos de Rubem Fonseca. São autores fascinados com temas como violência, sexo e escatologia, autores que parecem dispensar a “alma” da literatura. É uma literatura do corpo, dos desejos, das vontades, das fraquezas. É o corpo em todas as suas polaridades, em todas as suas facetas. Desde o mais epidérmico até o mais deep, até o mais úmido. É uma literatura do caralho.
Nesse sentido, O Cheiro do Ralo é muito bem sucedido na tentativa de transportar essa estética, esse clima de cinismo e desilusão para a tela. Há um quê de apocalíptico, uma aura de fim dos tempos. Isso é a cara das grandes cidades brasileiras. Essa atmosfera está em cada esquina, em cada beco, em cada bar. É um jeito de ler o mundo atual. Jeito amargo, meio ácido, meio nietzscheano — mas sempre um jeito, um caminho, um buraco. Em suma, essa visão rasteira é, em essência, adorável. Afinal, como diria Deleuze: “o mais profundo é a pele”.