Babèlllykós

o labirinto do fauno (bonde andando)

Março 23, 2007 · 2 Comentários

Resposta, não enviada, a e-mail de lista de discussão falando (bem) de O Labirinto do Fauno

Não dá pra comparar O Labirinto do Fauno com Harry Potter e – muito menos – com o fraco Crônicas de Nárnia. Basicamente porque têm propostas radicalmente diferentes em sua origem. O Labirinto, ao contrário dos outros dois, é, nitidamente, um projeto autoral, pessoalíssimo e – sobretudo – sem concessões.

Fico meio em dúvida quanto a concordar ou não com o sonho de paz do que você diz que o filme tenta vender. Mas pra explicar o motivo, preciso viajar em algumas impressões que tive do filme. Adiante…

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O labirinto é um lugar onde as pessoas entram para se perder, é a maneira intencional de perder-se. É assim a fantasia. A gente se perde, entre suas paredes, suas bifurcações, seus becos sem saída. A gente tenta superar os desafios que ela nos impõe, mas lá fora – outside the wall – tudo permanece idêntico. Pra mim, O Labirinto do Fauno passa por aí e não poderia ser mais realista. Ao mesmo tempo em que reafirma a força da fantasia, como criadora de mundos paralelos, nega sua capacidade a alterar magicamente o mundo.

O segredo de O Labirinto é que Del Toro toma a fantasia como algo em si mesmo. Na cena crucial, a do embate entre a menina e o padrasto, isso fica evidente. Para o tirano, não existe Fauno algum (assim como não existe tirano para o Fauno). O mundo mágico da menina não é páreo para o chumbo dos militares. Como tudo que é vivo, ela morre. O mundo todo colorido que ela vê antes da morte pode até servir como um consolo, mas a harmonia entre as duas esferas nunca será possível.

No entanto, embora “ensimesmada”, a experiência da fantasia é sim capaz de modificar o mundo, mas por caminhos menos óbvios que os das intervenções de seres alados nos rumos da existência. A fantasia age dentro de quem a experimenta. É desse lugar que ela exerce seu poder. É como se Del Toro tivesse a consciência de que é impossível deitar no berço esplêndido da fantasia em tempos difíceis como no nosso. Ao contrário de Crônicas de Nárnia, por exemplo, onde a meninada é jogada num mundo completamente novo, no qual é possível deixar pra trás a vida de agruras por um tempo para enfrentar outros desafios (e exercer um protagonismo outrora impensável), a personagem de O Labirinto do Fauno oscila full time entre esses dois universos. E essa é pra mim a grande “sacada” do filme. Não há metáforas, uma coisa não remete a outra, a fantasia não é utilizada para explicar o (ou para falar do) mundo, a fantasia é isto: fantasia. O mundo é mundo. Da fantasia, a mais pura; da realidade, a mais dura: no fio da navalha, a pequena Ofélia se equilibra. Ou seja: é genial!

***
Sobre Harry Potter. Acho que o filme proporciona outro tipo de experiência. Harry Potter, repare, parte do real como ele é configurado e propõe novas formatações para ele. Há lá uma escola… só que é uma escola para bruxos. Há muitos livros… só que eles voam. Há crianças implicantes… mas elas têm varinhas de condão. Harry Potter é a fantasia contemporânea, feito para crianças/adolescentes que, de certa forma, perderam muito da ingenuidade necessária para, digamos, “fantasiar com eficiência”. Está muito mais ligado à nossa capacidade de divagar, criativamente, com as coisas do dia-a-dia do que com nossa aptidão para mergulhar em outras dimensões. Harry Potter tem o tamanho exato das imaginações preguiçosas de hoje em dia, “colonizadas” pelo realismo. Harry Potter é muito mais divertido do que fantástico.

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2 respostas Até agora ↓

  • Anonymous // Agosto 12, 2007 às 10:36 pm | Responder

    Bom, tudo ok acabou de mencionar é verdade. E para lhe dizer acho ke sou uma dakelas pessoas ke nunca cresce: kero acreditar ke a magia antiga se encontra apenas adormecida mas ke existe, e ke seres mitológicos já existiram (ou ainda existem). Não tento provar os meus pontos de vista com o filme ou negar nada no seu comentário. Mas a verdade é ke mencionou numa certa parte do texto ke ” a harmonia entre as duas esferas nunca será possível”. Ora, deve protestar, pois acho ke a face do kual é considerada “fantasia” (o fantástico), é tão real kuanto a faceta sob o kual convivemos na nossa rotina. Excepto ke a primeira tem uma forma mais misteriosa e menos aberta ou evidente ke a outra. E eu acho ke é exatamente isso ke o realizador keria dizer kuando teve partes no filme como kuando a mandrágora foi posta, a mãe começou tendo uma recuperação tão milagrosa? E kuando foi retirada a mãe pereceu?
    Ou kuando depois no final do filme, a árvore acabou por se curar kuando antes estava tão velha e irreparavél kuando o sapo estava debaixo?

  • G.H. // Agosto 30, 2007 às 10:54 pm | Responder

    Democracia ao anônimo que diz: (O que será que ele(a), pensou?)
    Pode ter pensado em não criticar muito, mas metendo o dedo na ferida fétida, sem cloridrato de lidocaína, onde agora não se pode mas desinfetar de si o veneno que escorre de sua boca, ou pensando melhor, tentou mencionar que é verdade. Nem precisava dizer que você tenta ser uma “pessoazinha”, pequena ou melhor que não cresce, diferente de quem já cresceu e tem a pureza de ser criança…
    Ser uma pessoa daquelas que não cresce, é diferente que crescer sonhando e vivendo no mundo da fantasia, são coisas distintas.
    A pureza da imaginação e ter discernimento do real mundo que vivemos, mesmo quando os falsos “Kerem acreditar”, que podem deixar a dúvida dos seres mitológicos, nenhum deles é tão ruim como os daqui, onde ganham dinheiro roubando dos pobres, a madrasta não consegue ser tão fria quanto a mãe que não gosta de um filho, uma pobre plebéia amando um príncipe nunca irá desistir, e não se preocupa pelas riquezas do reino, mas aqui na terra de ninguém, você mesmo já pode ter julgado um grande amor, falando que foi o golpe do baú, a maneira mais fácil de lucrar, você poderia dizer que a Bela nunca iria ter Paixão pela Fera, a Bela Adormecida na vida real iria dormir para sempre, pois o homem que ela espera para libertá-la da maldição, não iriam fazer esse papel ridículo, até falaria ” Se ela me quer, ela que venha, agora estou indo ao Maracanã ver o meu Flamengo jogar, meeengoooo!”
    O fantástico, companheiro anônimo é que nunca será possível pois nem mesmo você consegue crescer como criança, prefiro eu, não igualar as coisas pois não só acredito mas vivo em um mundo só meu, que não se pode comparar, pois todos riam quando eu fazia esse tipo de observação, onde só pessoas fantásticas estão comigo, onde a maldade não me cerca, onde posso amar de verdade, criar e recriar a magia do saber, onde nem Alice nem Branca de Neve possam chegar, muito menos as máquinas humanas. Onde eu não só queira acreditar na magia antiga, mas onde não exista rotina, nem mentiras…
    Sou prova viva, O Labirinto do Fauno, me deixou certa das minhas idéias, mexeu com aquela paz que teríamos no coração, sai do cinema com lágrimas na face, pois são poucas as pessoas que vêem e aprenderam o sentido da vida. Falando como criança adulta, posso dizer que, a tristeza de uma criança que não pode confiar no Fauno, justifica a credibilidade que ele tem com ela pois ele nunca será tão mau, quanto as pessoas do mundo real, que não podem ser normais e assumir palavras ditas pelo não dito…
    Sou apaixonada pela vida e pelo filme que aqui está em discussão, mas apoio, piamente o meu ídolo, e tudo que ele escreve…
    É duvidoso o sonho de paz, a gente se perde nos imensos labirintos, que você mesmo escreve em seus textos, e se a magia pudesse mesmo mudar, ai eu teria uma varinha de condão e traria o mundo onde eu vivo hoje, pra vocês, pois hoje não tenho medo, só choro quando tenho que voltar e ler coisas como essas que tem no mundo, pois o medo torna as pessoas reais e elas caem nos buracos e escondem a cabeça…
    Não diga que também não sentiu medo de se expor e assumir suas palavras, Como o Autor desde, nos diz que:
    (…) Pra mim, O Labirinto do Fauno passa por aí e não poderia ser mais realista. Ao mesmo tempo em que reafirma a força da fantasia, como criadora de mundos paralelos, nega sua capacidade a alterar magicamente o mundo.(…)
    Mundos paralelos, ele teve a percepção, as opiniões podem ser labirintos que se perdem, neste ou em outro mundo, o seu?

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