E ela disse: “Tira a minha calcinha”
Tirei, voraz. Como quem arranca a pele do corpo com as unhas, como quem busca o mais fundo, o de dentro. Tirei, como quem tem sede, como quem tem fome. Tirei como quem não vê a hora, como quem já cansa de esperar.
E ela disse: “Faz o que quiser de mim”
E eu tive medo de mim, de meus desejos mais secretos, dos meus instintos primitivos, da minha face canívora. Na boca, saliva. Nos vasos, o sangue em sua corrida maluca. A boca, a língua, o dentre – e a carne tenra. Os líquidos, os gemidos, as coxas e os movimentos do ventre, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá. A dança, a sintonia, a música e, a plenos pulmões, o grito.
E ela disse: “Pára, sinto a morte chegando”
E eu comunguei com o fim da linha. E quis ver a face da insesejada, da impronunciável, da que não tem nome, da que nos espera. E quis morrer com ela e mandei a razão às favas e quis o que não se explica, o sentido que se sente. Não parei, mas a invadi, como quem esperasse há décadas, como quem não via a hora, como quem sempre quis. E agora tudo era espasmo e gagueira. Nossa carta de amor foi feita assim, à base de balbucios.
E ela disse: “Quero morar no teu mundo”.
E eu disse: “Já mora, ele fica no hiato entre mim e ti, no ponto de encontro entre nossos corpos, no espaço reduzido deste chão”. E ela sorriu e veio o abraço, e veio e beijo demoradamente intenso eterno enquanto durável.
E ela disse: “Eu te amo”.
E eu acreditei, porque não havia do que duvidar, porque o corpo dissera, o corpo falara, o corpo gritara uma história de amor e ao corpo não se faz objeções, porque o corpo é sincero, o corpo é verdade, o corpo é concreto e é com concreto que se erguem os castelos dos contos de fadas.
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