Babèlllykós

Entradas do Setembro 2005

AQUELE RISO SOLTO

Setembro 29, 2005 · 1 Comentário

A personalidade da mãe sempre tomou conta da casa. Seus gestos se espraiavam paredes, teto, telhado, mundo afora! Seu riso liberto tinha asas de libélula e cores de fada madrinha. O colo cálido, sempre presente, era repouso de guerreiros e guerreiras. Ela – a filhota, a caçula, a riqueza – provara cada fibra daquele afeto. A filhota, assim que ganhou corpo e sagacidade pra saber da própria sorte, entendeu o quanto a casa era feliz. A mãe – a do riso solto, a do colo cálido – sabia deixar ir e sabia deixar voltar; sabia, enfim, ensinar aos pequeninos seres alados que pipocavam impúberes pela casa as técnicas milenares do vôo livre que cria novos mundos, que cria vida, que cria amor e gozo. A filhota era grata – eternamente grata – por tudo isso. E naquele aniversário, comprou um presente assim ó escreveu coisas que só vendo pra acreditar, sabe? A mãe, olhos úmidos, agradeceu com seu melhor: o riso.

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BARGANHAS

Setembro 29, 2005 · Deixe um comentário

O dever, para ela, encarnou no trabalho. A prisão diária em troca da liberdade parcial que o ordenado representava ao final do mês. Emprestava seu corpo – seu território sagrado – às arbitrariedades do que é menor para garantir a apoteose de cada sábado.

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NUMEROLOGIA

Setembro 29, 2005 · Deixe um comentário

Ao corpo franzino e inviolável ela opunha a voracidade de sua boca para compor o objeto de desejo que representava na cabeça deles. Atravessara a adolescência entre volubilidade das festas americanas e as batalhas travadas contra sua vocação: a luxúria, o desvario, a visceralidade. Mantivera-se, por capricho, intacta até os dezesseis. (Desde cedo encantara-se pelas narrativas mitológicas e um mais seis é sete e sete é número mágico).

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A DANÇA

Setembro 28, 2005 · Deixe um comentário

Aprendera dançar num salão amplo e arejado, onde podia dar vez aos rodopios ciganos que lhe subiam dos tornozelos para as coxas, para o ventre. Dessa liberdade guardava boas lembranças e os espaços reduzidos de agora deixavam-na sem ar, vítima de um peso celestial que exigia dela respeito e temor. Sua dança ficara mais contida, deixou de girar, abdicou dos passos largos – mantinha firmes os pés no chão. Esses movimentos migratórios tornavam-na vociferante, malditas hordas civilizadas essas que se estabelecem, sem pedir licença, nos espaços vazios que antes eram só dela e de seus amigos e de seus convidados e dos seus, dos seus.

Os encontros, aos poucos, foram perdendo a graça. Sua dança converteu-se num eterno esquivar-se e ela, sinuosa e fria, ganhava feições de serpente e gestava peçonhas mortíferas na órbita dos olhos turquesa. Seus olhos, agora, serviam para inocular veneno potentíssimo, fatal. Tomara gosto pela destruição, pela morte, pela ceifa. Fizera-se dura, rija, perdera a graciosidade dos movimentos, embora sua figura ainda exercesse um demoníaco poder sobre toda sorte de homens, mulheres e felinos que dela se aproximassem. (Era o fascínio da morte, seu irresistível mecanismo de atração e repulsa tão caro ao ser humano. A morte é o destino que nos atrai, nosso signo mor, nosso fim).

Na lida diária perdera o gosto pela vida, tornou-se mais esquemática, cedeu a um ou dois modelos de conduta e de outros tantos fez uma salada que a nutria perfeitamente: na medida exata do sobreviver. Quando descobriu que sua arte – sua dança, sua corporeidade – tornara-se marcha (de progresso), já era tarde para voltar, para procurar novos bailes, novos salões. Lamentou um pouco a perda do lastro com o passado, mas nada que – em sua versão marmórea – resultasse em lágrimas ou lamúrias. A inflexibilidade tocara-lhe os ossos. Agora era olhar para frente e seguir o ordinário.

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É TUDO VERDADE

Setembro 28, 2005 · 1 Comentário

Riso contido, negaceava. Verdade nunca fora seu forte. E, afinal, que graça têm os fatos? Graça tinha ela, nos vestidinhos floridos, nas calças brancas, nos tecidos leves. Eu disse isso.Ela, riso solto e alado, fez alegria. Chamou pra perto, apertou os lábios contra os meus e danou a falar sacanagem assim. Eu gostava. Estávamos ali, eu e ela, éramos nós: para quê verdade maior que essa?

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FEITO COISA

Setembro 28, 2005 · Deixe um comentário

Um dia fui objeto do teu amor, recebi os mimos que me cabiam: a recompensa dos amáveis. Mas agora – agora o quadro é bem outro: não passo do sujeito que reorganiza as lembranças em busca de um sentido insuspeito. Saudades – saudades lancinantes do tempo em que era objeto. Tudo que eu precisava, naquele tempo, era estar ali, ao alcance, disponível, aberto, luminoso, radiante e parabólico, sempre pronto a captar a freqüência do teu desejo. Hoje sou apenas mais um sujeito – mais um sujeito que, depois de ti, segue às apalpadelas, experimentando a hostilidade do mundo em cada gesto, confrontando sorrisos estranhos e tentando decifrar enigmas silentes em faces jamais vistas: faces ocultas na mesma moeda que encerrava nossa história.

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NOS BASTIDORES

Setembro 28, 2005 · 1 Comentário

Sempre teve predileção por tarefas complexas, que envolvessem miudezas, detalhes (riqueza de). Fazia o tipo ensimesmado, saturnino – daí o espanto de todos diante daquela cena. Não se esperava dele, não, não – dele, jamais. O fogo divino sempre foi dos heróis, dos que ficam no primeiro plano. Ele? Ele não. Como disse, era um homem de miudezas, detalhes (riqueza de), bastidores. E de lá – dos bastidores, ora! – é que fez o primeiro, o segundo, o terceiro plano: todos meticulosamente arquitetados. Cenário montado, terminou no quarto. Com ela. Em chamas.

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APELO

Setembro 28, 2005 · Deixe um comentário

A única verdade é o desejo, galega. O “x” da questão não repousa nem lá – nas tuas ciências ocultas – nem cá – na minha vã filosofia: a resposta está entre as pernas: tem cheiro, tem gosto, tem charme, tem fogo. Vem comigo, galega, aceita meu convite: vamos passear no bosque enquanto o seu lobo não vem. Vamos nos perder e dançar e beber e foder até a exaustão – até nunca! Até nunca! Bora perder os sentidos e embriagar e adolescer e alucinar e gozar – gozar do amor algo loco que brota entre os seios, na surda incandescência do teu sexo emudecido, calado e mal-comido. Vem, galega, a hora é essa, abra os braços, abra a boca e suspire: dê asas à languidez que é só tua e abra – abra logo as pernas, que já canso de bater. É tempo de deitar, galega. É tempo de deitar, vem pra cama – já passa da hora. É tempo de deitar…

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O COPO

Setembro 28, 2005 · 1 Comentário

Só restou a luminosidade daquele copo. O brilho hipnótico, cristalino, translúcido. Jóia líquida: continha em si todo valor do esquecimento, do torpor, da ausência – bênçãos únicas num mundo de euforia e danação.

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SILÊNCIOS

Setembro 28, 2005 · Deixe um comentário

Já não cabe em mim aquela calma de outro tempo. Agora tudo vem aos borbotões. São torrentes que me arrastam, turbilhões, cataclismos cognitivos, irrupções, bolhas: bolhas de pensamento que surgem, incham e explodem no ar para constituir outras combinações, outros agenciamentos, outros enunciados. Tudo se parece a um dança, uma grande dança, um bacanal, uma orgia profana feita de prazer e fugacidade. É a face do hedonismo que surge insinuante, espiando-me nas frestas deixadas pela precariedade do meu pensar. Um hedonismo infantil, pautado pela inocência e o desejo louco e forte e breve de ter a vida nas mãos – a própria, a minha, a outra. Esse fluxo leva consigo minha paciência, meu jeito bom moço de ser no mundo, minha delicadeza. Faço-me áspero sem incorrer no excesso da austeridade. Aperfeiçôo técnicas arcaicas – insuspeitas num mundo de silício e concreto – e dou pra estabelecer contato com a selvageria que me vai, com a selvageria do cosmos, com a selvageria mágica dos feitiços, dos desdobramentos, do irracional e do irascível. Perco os pudores, deixo de esconder minha própria maldade. Meu desprezo pelo mundo (ou por um certo mundo) se faz mais evidente, mais visível, mais palpável. Seguro meus delírios com unhas e dentes – minhas unhas, meus dentes – enrijecidos pela certeza de que de toda parole é arquitetura – falível, ruível, rizível. Em meio à verborragia, calo, silencio, caio num sono profundo, multicolorido e hermeticamente fechado. Meu legado é esta mudez.

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