Na primeira vez, você disse que não podia. Tentou explicar, tinha seus motivos. Eu disse que não precisava, entendia, deixa disso. Na segunda vez, você disse que não dava e tentou explicar suas razões. Deixei, mas você foi menos convincente que o esperado. Deixei passar. Amava-o demais pra apegar-me às miudezas do seu discurso. Na terceira vez você disse que tinha se enrolado um pouco, que explicava depois, mas que não poderia ir mesmo. Fiquei triste, quase chorei. Mas o amava ainda. Eu o amava tanto! Na quarta vez você disse que precisava ir, que era coisa importante, que eu precisava entender, que eu costumava ser mais compreensiva. Dessa vez – dessa vez chorei. Chorei tanto, mas tanto, mas tanto – chorei até secar um pouco. E sequei. Secou. Um pouco. Na quinta vez você disse que viria, mas não apareceu. Nem ligou. Nem quis discutir o assunto. Chorei. Outra vez. Mas um pouco menos. Chorei até secar. Até secar bastante. Até secar mágoa por mágoa. No peito – no peito um deserto seco-seco. Sentimentos estilhaçados: grãos de areia, vão dos dedos. Vãos. Seca, seca, seca. Na sexta, guardei o que restou numa mala: vazio. No sábado, poesia.
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