Babèlllykós

Entradas do Janeiro 2005

BALAS PERDIDAS

Janeiro 18, 2005 · Deixe um comentário

COMO UMA ONDA…

O jornalismo é uma profissão ingrata para os que lhe querem bem. (Na verdade quem quer bem ao jornalismo quer bem a uma abstração: não há na imprensa nacional jornalismo que, despido, faça bom papel). Neste final de ano, exemplo clássico: quase todo mundo (se não fosse o quase!) sabe que final de ano é época de pôca pauta. Congresso em recesso, futebol em recesso, as decisões importantes (nos dois campos) adiadas para depois do carnaval, resta à bigimprensa caçar uma retrospectiva aqui, um fato pitoresco acolá. Tudo muito meia boca – afinal, sabe-se que a imprensa gosta é do extraordinário, do espetaculoso, como diria um personagem de novela (e eu lá lembro qual?!). Final de ano é época de Roberto Carlos, de vinhetas globais, de São Silvestre (existe coisa mais sem graça que a São Silvestre?). A imprensa definha.

A não ser que…

… a não ser que role uma tragédia, uma cabeça, uma desgraça. É tão triste dizer (quanto noticiar), mas o Tsunami salvou a imprensa mundial de uma calmaria que lhe dá nos nervos. Já vamos pra quase um mês de coberturas exaustivas (mas nem por isso menos ralas) da tragédia no oriente. O mundo é uma laranja, ergo tiremos dela a última gota – de sangue (ou de água salgada). O Ibope cresce na proporção do número de mortos. Se santo de casa não faz milagre, que dizer dos mártires? Olhemos pra Ásia, sim, olhemos pra Ásia! Essa é uma boa maneira de tirar os olhos de nossos miseráveis (os sentidos pululam), da população de rua, que cresce a dar com pau (os sentidos pululam), dos boçais que assumiram centenas de prefeituras no 1º de janeiro! Salve Tsunami! Salve a ilusão! Salve salve amigos da Bandeirantes!

SONTAG

Além das inúmeras vítimas do Tsunami, 2004 teve também uma vítima do câncer. Susan Sontag, uma das intelectuais mais polivalentes (combativa, ácida e incisiva) de nosso tempo, morreu. Morreu entre as vozes do Arizona (mesmo nascida e criada em Manhatan) com coragem de criticar modafóca do Bush.

Mas a arte da filósofa-cineasta-crítica-etc. vai muito além disso. Bush é uma reticência demasiadamente insignificante na grande obra dessa moça. A mim, a morte da dita cuja abalou de sobremaneira. Não porque fosse um dos inúmeros fãs que ecoam suas idéias feito epidemia (gosto disso). Tomei contato com Sontag duas semanas antes dela morrer, por meio de Contra a Interpretação, um de seus livros mais importantes. Apaixonei-me pelo estilo, pela gana, pela perspicácia de Susan (é, estávamos começando a pegar certa intimidade). Perde-la dessa forma, como que arrastada por um Tsunami, foi como furar ao pneu da bicicleta ganha no natal em pleno 26 de dezembro.

RELEITURAS: CEM ANOS DE SOLIDÃO E O JOGO DA AMARELINHA

Não sei se vocês sabem, mas estou de férias. Depois de uma overdose teórica (lembram do TCC?), resolvi dar um tempo desse mundo em tons pastéis: voltei aos romances. E creio que nada melhor para um filho pródigo do que fazer uma visita aos velhos amigos. Foi acreditando nisso que fui em busca de Garcia Marques e Cortazar.

Com Garcia, conversei de forma ininterrupta (ou melhor, ouvi-o contar suas histórias) por três dias que me pareceram cem anos. Deu-me notícia dos Buendía, de quem não ouvia falar há tempos. Boa conversa, animada pelo acordeom de Aureliano Segundo. Olha, devo dizer que me emocionei. E, antes que me duvidem, aviso logo que não sou homem dessas bobageiras. É que o índio desencravou histórias das antigas, de um tipo que me deixa comovido pra diabo.

Depois de me recompor emocionalmente, fui até a baia de Cortazar. Encontrei-o mais crescido, com um pé que só não chegava antes de sua fama aos algures do mundo. Temos dialogado muito nesses dias. Este sujeito não me leva dos desmundos percorridos por Garcia, mas remete-me à infância. Sem me dar conta, dou por mim a jogar O Jogo da Amarelinha, ansioso por lançar a pedrinha (quais os espaços proibidos?). Cortazar ri-se de mim, do alto de sua estatura. Vez ou outra, aproveita-se de minha infantilidade momentânea para zombar de minhas limitações. “Que te impede, a pedra?” Não sei, não sei. O fato é que essas conversas me perturbam em quantia. Tanto tanto que, dia desses, resolvi me arriscar nas terras da poesia, o que – disso todos sabem – não é coisa de quem anda bom da cabeça.

HOJE É DIA DE LUIS FERNANDO CARVALHO

Se a escassez de pauta faz o jornalismo definhar, as “férias” dos programas globais traz novo alento à programação da gigante. Com exceção óbvia do Big Brother (que já teve seus encantos, mas caiu no estereóbvio), a Globo tem levado ao ar cositas interessantes, mas nada que se compare a Hoje é Dia de Maria. Há muito tempo que eu não via algo tão bom saindo das telas globais. Quando se decide usar a televisão pra fazer teatro-cinema-ou-cinema-teatro é que a gente vê o quanto a telinha faz mal pros atores. O elenco da Globo não é ruim não, meu povo. O que mata é decorar texto de novela tipo bicho, como diria meu pai, e ter de fazer tudo nas coxas.

Além da produção cuidadosa da série (a idéia da cúpula teve um quê de genial) deve-se, é claro, destacar a direção. Pra quem não lembra, Luis Fernando Carvalho foi o diretor de Lavoura Arcaica (o desaparecido), considerados por muitos um dos filmes mais interessantes que se produziu por estas bandas nos últimos anos. Não é preciso nem ir à telona pra perceber que léguas de distância separam carvalho de Monjardim, por exemplo, que no ano passado dirigiu a A Casa das Sete Mulheres e, ainda que a história, o cenário (tá, tô sendo bairrista, admito) e o elenco fossem bons (e tenham salvado a história na maior parte do tempo), ninguém merece o dramalhão no qual o diretor transformou a série. Eca! Deusmelivre de Olga!

DA LAMA AO CAOS

Pra fechar com chave de cadeia, vou falar de Senhora do Destino. Não, não. Não vou falar dos erros de continuidade, não. Nem da Nazaré-Heleninha, que junto com Tom Hanks, faz miséria. Como bom jornalista, vou falar é de tragédia. De tragédia das grandes. Vou falar da Carolina Dickman. Pelo cachorro-da-mão-torta, quando é que aquela menina vai aprender a interpretar??!! Não, não. Tô cansado desse povo que ganha a vida fazendo caras e bocas (na televisão).

E outra coisa, alguém pode me responder o que – diabos! – a Marília Gabriela está fazendo naquela novela (além de encher o bolso de dinheiro). Não, não. Pra mim chega. Tô dando linha. Ciao!

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“Ordinary life is pretty complex stuff” – Parte VI

Janeiro 18, 2005 · Deixe um comentário

A Parte V deste postão falava dos filmes como uma das poucas alternativas para fugir do cotidiano enfadonho de Guarapari. Como já falamos disso, é compreensível que eu volte a falar de filmes agora.

O filme a que mais assisti nesse último ano e meio foi “Confissões de uma mente perigosa”. Dirigido pelo George Clooney e roteirizado pelo Charlie Kauffman, o filme é baseado no livro obscuro (que possivelmente mistura realidade e ficção) de Chuck Barris, produtor/apresentador de TV, criador do Namoro na TV e do Show de Calouros. No livro, Barris diz ter trabalhado como agente da CIA enquanto apresentava seus programas. Ninguém sabe dizer se isso é verdade ou mentira e a lendinha ajuda a tornar o filme mais intrigante (e rocambolesco).

Eu não sei ao certo o que mais me cativa em “Confissões de uma mente perigosa”. Talvez o período história que ele perpassa (65-70), ou as sutilezas cômico-dramáticas, ou ainda a interpretação de Sam Rockwell. No fundo – suspeito –o mais provável é que eu tenha me apaixonado pela Penny. É difícil explicar, mas aquele sorriso convidativo e aconchegante da Drew Barrymore veio a calhar num período em que meu então namoro andava meio sem sal.

Assim como “O Anti-herói Americano” e “Adaptação”, “Confissões de uma mente perigosa”, como eu já disse, trabalha no limite entre ficção e realidade e também retrata a questão do show business (ainda que de forma bem menos direta que os outros dois).

Dessa salada toda, o que salta aos olhos é a necessidade que a arte tem de olhar pra si mesma, de se auto-analisar…

… mas eu não queria falar dessas coisas. Queria apenas dizer que “Confissões de uma mente perigosa” tem sido meu filme de cabeceira (existe isso?) no último ano. Sei que existem melhores, sei que isso, sei que aquilo, mas devo dizer que isso não tem muito a ver com capacidade de apreciação e discernimento crítico. Tem a ver com uma outra coisa que talvez nem sirva para dizer o que é arte. Creio que se Deleuze lesse isso, diria que tem a ver com afeto, com agenciamentos, com devires… ou com babaquice.

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“Ordinary life is pretty complex stuff” – Parte V

Janeiro 18, 2005 · Deixe um comentário

Guarapari oferece poucas alternativas pra quem quer fugir da vida ordinária. Uma das linhas de fuga que vêm sendo traçadas por aqui nos últimos meses são os filmes. Em janeiro, mais três salas de cinema serão abertas na cidade. Todas elas dedicadas ao “cinemão”, às bombas do circuito comercial. A Alfa Vídeo Locadora (eles podiam me pagar algum por esse merchandising) é o único lugar onde é possível encontrar um filme realmente interessante pra se assistir aqui. A carência é grande, mas já é hoje já dá pra locar alguns filmes franceses mais recentes, filmes latinos, os indicados em Cannes e Sundance (que muitas vezes são muito ruins) e clássicos de Hitchcock, Kubrick e Eisenstein. Não que eu seja metido a cult não (por sinal, ô palavrinha gasta essa). Muito pelo contrário. Adoro uma comédia pastelão de vez em quando. Mas nem só de pastelão vive o homem.

O grande problema é que a fuga cinéfila aumenta de forma monstruosa a conta da locadora e, muitas vezes, resulta num sentimento de frustração. Depois dos filmes, é preciso voltar à realidade do lugar. E ficar em silêncio. Não há sequer um gueto de gente disposta a conversar sobre as idéias suscitadas por esta ou aquela película. Com os amigos, o risco é criar um círculo vicioso, auto-referente. Aos poucos, o silêncio aumenta. O silêncio e a sensação de isolamento.

Na época que eu não tinha nem vídeo cassete, nem DVD, nem dinheiro pra ir ao cinema em Vitória (ainda não tinha cinema aqui), eu lia. Lia compulsivamente. Lia, dormia e bebia. Um tremendo vidão – do qual não tenho a menor saudade.

Pra mim, Guarapari funcionou como uma espécie de exílio. Serviu pra eu me conhecer melhor, já que logo que cheguei aqui foi difícil estabelecer contato com os nativos. Em certos momentos, tinha a certeza de que falávamos línguas diferentes. Não estava de todo errado.

Estou falando dessas coisas só pra dizer que não gosto de falar dessas coisas e que este “post” na realidade quer dizer que sinto falta de escrever sobre as coisas que acontecem à minha volta e não dizem respeito ao cotidiano. Quero que coisas boas aconteçam sem depender diretamente de mim. Ando preguiçoso. E cansado. Quero sair do meu mundo. Quero ir logo pra Porto Alegre.

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“Ordinary life is pretty complex stuff” – Parte IV

Janeiro 17, 2005 · Deixe um comentário

É possível que a melhor forma de explorar o microcosmo da vida em sociedade seja partindo de nós mesmos. Talvez seja por isso que Pekar tenha se transformado em objeto de sua arte quando resolveu entrar para o mundo dos quadrinhos. Não sei nada de Cleveland, mas sei que quem mora em Guarapari ocupa-se de sua “ordinary life” na maior parte do tempo. Não há muitas maneiras de fugir disso por aqui. Eu, por exemplo, muitas vezes estou às voltas com os buracos das ruas, com a estupidez do trânsito, com as “pessoas de alma bem pequena”, com a incompetência dos administradores, comerciantes e empresários, com os baixo salários, com a falta de perspectivas, com a falta de uma vida cultural…

Guarapari é, essencialmente, um lugar para se experimentar a complexidade do cotidiano. Não poucas vezes, ocorreu-me divagar acerca dessas coisas. Uma vez criei uns personagens, os vermes lunares, a partir de devaneios acerca dos buracos que tomam conta das ruas da cidade. Parece coisa de quem não tem o que fazer, mas não é SÓ isso. De fato, os buracos de nossas ruas são peculiares. Eles surgem da noite para o dia, como se a cidade estivesse apodrecendo e a qualquer momento fosse desaparecer, tragada pelas profundezas. Sob certos aspectos, seria apenas a aceleração de um processo que acontece de uma outra maneira: na realidade, Guarapari está sumindo (ou deveria dizer se consumindo?) aos poucos, dia após dia, governo após governo, verão após verão. É triste começo do fim…

Não seria difícil transformar essa tragédia toda em objeto de arte (Ivan Castilho e Júlio Tigre, contistas locais, fizeram isso, de certa maneira). Mas confesso que não me agrada muito essa coisa de sugar a vida das pessoas pra transformá-las em objeto – mesmo que da arte. Aquele estilo Dalton Trevisan de ser (perder o amigo, mas não perder o conto) não faz minha cabeça. A gente nunca conhece suficientemente uma pessoa pra fazer isso sem cometer injustiças. Se eu conseguisse fazer isso comigo, vá lá! Mas já tentei e o resultado não foi dos melhores. Primeiro porque não gosto de ser incompreendido. Escrever é automaticamente sujeitar-se à incompreensão alheia. Escrever sobre mim mesmo seria saltar no abismo. Não, não. Sou introspectivo demais pra isso e, noves fora, minha vida não é mais interessante do que a sua, a dele, a dela, a deles…

Confesso que quando se vive tanto tempo circulando em ambientes restritos (as mesmas caras, os mesmos risos, os mesmos gostos) fica difícil não se fechar um pouco; fica difícil não sentir vontade de envergar-se, dobrar-se sobre si mesmo e conversar em voz alta com os próprios botões. Vez ou outra o ego escapa e rende um “eu acho aqui”, um “dia desses estava eu acolá”… esse processo é natural. No paranoid. O que me incomoda é a obsessão, o tema único, o umbiguismo…

Se há algo que tento evitar a todo custo é permitir que o Psicotópicos se transforme num diário. Nada contra quem faz isso, alto lá! Tem gente que trabalha muito bem com essa coisa toda de falar de si mesmo sem parecer imbecil. Mas esse não é o meu caso. Agora, por exemplo, já começo a me sentir incomodado.

Tem uma dúvida que sempre se me apresenta em forma de dilema (que é palavra parruda): se a realidade que conheço melhor é a minha, como fazer uma literatura mais intensa e humana sem abrir a guarda e dizer de mim, do que me afeta, do que me toca, do que me vai? Pra mim, o que torna Clarisse Lispector tão viscosaviva é justamente essa capacidade de atirar-se ao ato de escrever, de entregar-se ao leitor sem se preocupar com os sentidos possíveis (mas com o sentir), com as interpretações, com o que será feito dos pedaços seus que ela oferece ao mundo. Ao mesmo tempo, sei que não conseguiria fazer isso. Um pouco por ser tímido (e possivelmente covarde) demais, outro pouco por duvidar da minha capacidade de fazer sem cair no “besteirol em tom confessional” (percebam que me torno repetitivo). Não basta falar de si mesmo para fazer arte. É preciso falar de uma (in)certa maneira. Creio que é isso que diferencia um diário comum do diário de um artista. Mas aqui começo a pisar no terreno perigoso do achismo e dos lugares comuns. Melhor parar. De resto, este “post” já se estendeu demais.

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“Ordinary life is pretty complex stuff” – Parte III

Janeiro 17, 2005 · Deixe um comentário

Há muito que queria escrever sobre “Os Aspones” e as coincidências. Vamos a eles/elas: até conhecer o blogue da Bianca só lembrara que existe a profissão arquivista umas duas vezes (no máximo) nos últimos 10 anos. Nos anos anteriores, é possível que eu nem soubesse de sua existência. Curiosamente, pouco tempo depois de eu ter visitado o Notícias do Mundo de Cá, entrou no ar a série “Os Aspones”, na qual os cinco personagens, assim como a Bianca, a Rosália e o Kleber de Mateus, são arquivistas e moram em Brasília.

Não sei o que os profissionais da arquivologia acham da série, mas devo dizer que, nas três oportunidades em que assisti ao programa, ri muito. Muito mesmo. Fiquei até com vontade de pergunta à Bia se ela conhecia a lenda do Fungus Supremus…

Bem, bem: falo disso porque a profissão de Pekar em “O Anti-herói Americano” é a mesma dos Aspones, da Bianca, do de Mateus e da Rosália. Harvey Pekar, além de roteirista de suas próprias histórias, era arquivista. Será que o cheiro de mofo deixa as pessoas mais criativas?

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POEMA QUADRADO

Janeiro 12, 2005 · Deixe um comentário

I

Passou

E levou a beleza consigo.

Tempo bom é tempo perdido

com piada graciosa-

mente sem graça

(a vida em cores,

repleta de contornos)

Retornar?

Não, não.

Já passou da hora:

passou a mão no que era seu e deu linha

torta.

Portas fechadas não param

redemoinhos.

Águas de março fecham

o inverno

em outros (desen)cantos.

Desencontros? Acontecem.

Keep walking

enche a cara,

esquece.

II

Decerto só

o desacerto é bom.

Poema torto tem

dessas coisas.

Envereda

por caminhos estranhos,

nos enreda, nas pega

de jeito e aí

já era.

O erro.

O erro tem dessas coisas.

O erro vem dessas coisas

(deus incerto:

humano como ele só

vendo,

não compro.

E assim

sendo

prefiro estar entre os mortais

e seus fogos-fátuos –

beatitude com gosto

de carne.

Podridão efêmera!

Que equivale à eternidade).

III

Descobriu-a

na tenra idade,

mas devolveu-lhe as cobertas.

De que serve uma musa

resfriada?

Deu mole

Na hora de endurecer.

O tempo (perdido)

entrou de sola.

Quem perdeu-se

foi a musa.

Se por um lado andava

Saudável

e não espirrava,

por outro

perdeu o time,

apegou-se à coberta,

não mais respirava:

murchou

e assumiu as feições duvidosas

de um pepino

em conserva.

IV

Disse que só o final

podia salvar

uma história mal contada.

(Para roupa suja

que se lava em casa

existe Omo Dupla Ação.

Só pra sua cara deslavada que –

ela disse –

não há explicação).

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Falar pouco…

Janeiro 3, 2005 · Deixe um comentário

Há muito para ser escrito. Queria falar de meu reveillon, passado em Domingos Martins (cidadezinha de imigração alemã, cercada se montanhas no interior do Espírito Santo) ao lado da mulher que eu amo. Queria falar da morte da Susan Sontag e da maneira como o livro dela (Contra a Interpretação) está me afetando. Queria explicar a série de textos inspirada no filme “O Anti-herói Americano” (“Ordinary life is pretty complex stuff”), que tenho postado aqui no Psicotópicos desde a semana passada. Queria dizer que tenho outros textos já escritos, que pretendo postar gradualmente, ao longo do mês de janeiro. Queria falar de tanta coisa!

Mas hoje vou falar pouco:

1)Fugir da muvuca às vezes é bom

2)Três I´s para resumir minhas impressões sobre Susan Sontag até agora: inteligente, incisiva e instigante.

3)A série “Ordinary life is pretty complex stuff” reflete/especula/palpita sobre a arte e o artista na contemporaneidade, sobre as possibilidades – e dificuldades – de se transformar a banalidade do dia-a-dia em algo maior e sobre as mazelas de Guarapari.

4)Tenho escrito alguns poemas que dizem de um período de introspecção que atravesso mas que reluto em postar por motivos que estão nas entrelinhas da série “Ordinary life is pretty complex stuff”.

5)Por último, gostaria de dizer que nos últimos dias me interessam mais os bate-papos do que os discursos. ´mabraço.

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"Ordinary life is pretty complex stuff" – Parte II

Janeiro 3, 2005 · Deixe um comentário

Por incrível que pareça, “Adaptação” é o filme de Charlie Kauffman do qual menos gostei. Levando-se em consideração que gostei muito do filme, dá pra se ter uma idéia do quanto gostei dos outros.

Kauffman escreveu o roteiro de “Adaptação” – diz ele – num período em que passava por uma crise criativa, por não conseguir adaptar um roteiro. Esse é justamente o drama do personagem, o próprio Kauffnan, que contorna o problema falando de si mesmo, colocando-se como personagem do filme. Estamos falando de Charlie Kauffman, portando é lógico deduzir que além dessa espinha dorsal – representada pelo personagem Kauffman, muito bem interpretado por Nicholas Cage – há toda uma salada de histórias que de misturam e alternam o papel de história principal e pano de fundo.

Adaptação aproxima-se de “O Anti-herói Americano” em diversos pontos, a começar pela mistura de ficção e realidade. Assim como o Pekar, Kauffman também existe no “mundo dos cheiros”, embora não se possa definir ao certo o que há de verdadeiro no Kauffman-Cage e o que é fruto da imaginação (fértil, deve-se dizer) do roteirista de “Quero Ser John Malcovich”. A propósito, “Adaptação” começa no set de “Quero Ser John Malcovich”. Ao fundo, vemos um Cage-Kauffman tímido, retraído, atrapalhando a cena com sua feiúra. A partir daí, é possível ter uma idéia vaga do que é o personagem. Idéia muito vaga, porque ele é pior. O contraste com o irmão gêmeo (Donald Kauffman, este absolutamente inventado, fictício), Charlie torna-se um ser incômodo, repugnante, perturbador. Charlie é incapaz de tomar qualquer atitude. O fluxo mental intenso nunca passa disto: fluxo mental.

No filme, Kauffman aproveita para falar sobre criação (sobre sua arte, a arte de fazer roteiros) e sobre o cinema de uma maneira geral. É interessante acompanhar o diálogo de Charlie com a produtora que quer lhe passar o trabalho de adaptação de “O caçador de orquídeas”. Nessa conversa, Charlie se esquiva, diz que não quer um filme com romance, sexo ou final feliz. Enfim, diz que quer fugir de todos os clichês hollywoodianos. No final das contas, “Adaptação” tem tudo isso (e essa ironia foi muito bem aproveitada, vale dizer, no trailler do filme).

O final feliz de Adaptação envolve uma mudança de Charlie. Envolve um desenvolvimento de sua capacidade de adaptação (no sentido darwiniano, como o filme faz questão de frisar). Nesse ponto, o filme encaminha-se para o final tradicional, hollywoodiano, diferente do final incômodo de “Quero Ser John Malcovich” ou triste de “Confissões de Uma Mente Perigosa”, dois outros filmes roteirizados por Kauffman.

Aqui, cabe pontuar uma grande diferença entre “O Anti-herói Americano” e “Adaptação”: o primeiro parece não chegar aos extremos. Não há uma super-exploração do “potencial dramático” das cenas. Ao que parece, os diretores buscam um realismo no qual o drama da vida real (representada) seja suficiente para tocar, onde não sejam necessários artifícios como câmera lenta ou trilha sonora “intensa”. Como disse na Parte I deste texto, “O Anti-herói Americano” se detém na complexidade do cotidiano. (Seria imbecil dizer que o filme se descuida da forma e abre mão de todos os artifícios: a edição e a utilização de animações deixa isso evidente. Contudo, como disse no texto anterior, o espectador é constantemente chamado à realidade).

Ao contrário de Charlie, que é capaz de irritar o espectador com tanta apatia, Pekar tem um ar convidativo, agradável, confiável – apesar de todo mau-humor e pessimismo.

Apesar das diferenças – e elas são muitas – creio que O “Anti-herói Americano” e “Adaptação” se encontram muitos momentos. Vale pensar alguns pontos, começando pela reflexão acerca dos motivos que levam um artista a tornar-se objeto da própria arte (e isso serve tanto para Bukowski, quanto para Kauffman, Pekar ou Kafka).

Não sou artista, mas ontem, desesperado pela falta de inspiração, disposição e vontade de escrever, acabei escrevendo um texto sobre textos. Um texto que, no fundo, diz de minha relação com a escrita e com o Psicotópicos. Mesmo com o desânimo, escrevi três páginas. Fiquei meio assustado com isso. E mais ainda com a coincidência de assistir “O Anti-herói Americano” justamente depois de passar por essa experiência kauffmaniana…

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