Babèlllykós

Entradas do Julho 2004

ALGUNS TEXTOS

Julho 30, 2004 · Deixe um comentário

Pra quem quiser se situar melhor na discussão sobre tecnologia (e sobre porque minha insistência em falar sobre isso), vai aí o link pra dois textos interessantes: Ministério da contra cultura (texto que citei em outro “post” de forma sutil mas que, depois das discussões em torno das idéias de Bustamente, merece uma atenção especial) e Democratização da Informação, que traz o resumo de uma palestra com Frei Beto sobre esse assunto.

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CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA HÁ MUITO TEMPO…

Julho 30, 2004 · Deixe um comentário

Morreu anteontem o mendigo Chico Tabaculê, que há anos era parte do folclore de Guarapari. Tabaculê foi morto com uma paulada na nuca. Algumas pessoas sondam a possibilidade de vingança, pois há pouco tempo Chico agredira um cego que esbarrara nele por acaso.

No enterro, anunciado por em carros de som, figuras carimbadas, como a do compositor de “Meu pequeno Coroado” e “Peroá”, o maratimba Lingüinha – figura tão errante quanto Tabeculê nas ruas da cidade.

Reza a lenda, que Tabaculê não gostava de tomar banho. Vez ou outra, alguém lhe dava um banho meio que à força. Quando isso acontecia, ele gritava, dizia que morreria, que o médico o proibira de tomar banho. Era mentira, mas parece que ele levava a sério. O mau cheiro – junto com os gritos – costumavam anunciar sua chegada, informar, como um localizador arcaico, em que ponto da cidade ele se encontrava. Desta vez, os gritos que tantas vezes salvaram Tabaculê banho, não o salvaram da morte.

O apelido Tabaculê, ninguém sabe ao certo de onde vem. O fato é que era esta alcunha que fazia Tabaculê xingar palavrões sem conta — na linha do “seusfeladaputa” — e emitir grunhidos, muitas vezes assustadores, que faziam eco nos prédios do centro. Quando ele passava, logo alguém mexia: “Tabaculê! Tabaculê!”. Era, geralmente, um coro, que Tabaculê revidava, segundo alguns com prazer.

Esse é, por sinal, um detalhe interessante na história oral que foi sendo contada em torno do mito de Tabaculê: segundo alguns, Chico gostava que o chamassem de Tabaculê. Ser provocado e revidar com palavrões e pedradas seria, teoricamente, sua forma de continuar existindo em sua inexistência. Isso não o livrava de ser mendigo, mas o tirava da invisibilidade. Assim como as composições de Lingüinha ou o carrinho de Pedro Doido os tornam visíveis, os gritos de Tabaculê faziam com Chico.

Tem gente que diz que ele tinha família. Outros, que era funcionário da Escelsa e enlouquecera após cair de um poste e bater a cabeça (ou depois de levar um choque?). Outros afirmam que era um homem lúcido, com o qual se podia conversar normalmente depois que se chegava perto. Os seus, diz-se por aí, estão em algum lugar no interior do estado e — testemunhas afirmam — seu irmão compareceu ao enterro.

E tem gente que nem sabe o que diz.

Se Tabaculê queria ser visto, conseguiu. Abriu mão da vida – a vida toda – para entrar na história de Guarapari. O destino tragicômico faz pensar sobre como nos tornamos insensíveis para certas coisas. Como temos facilidade para coisificar o outro, tratá-lo como aberração: o “freak show” que nos faz acreditar que somos melhores. Tabaculê deixou de ser Chico, pra ser Tabaculê. É uma maneira enviesada de existir, de estar no mundo. Uma modo de ser não-sendo, de ser descendo ao fundo do poço. Um modo se fazer ver o quanto nossa indiferença pode ser letal.

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FOLHAS CAEM

Julho 29, 2004 · Deixe um comentário

As demissões na Folha de São Paulo mereceram destaque especial no site do Observatório da Imprensa, esta semana. Para quem acompanha o universo do jornalismo diário brasileiro (e nem precisa ser tão de perto), não é novidade dizer que a Folha pretende ser (ou pelo menos pretende parecer ser) o jornal mais sério, respeitado e que trata os temas com maior profundidade no Brasil. Essa veia analítica do jornal, que o aproxima um pouco do modo francês de fazer jornalismo (pensemos no Le Monde) sempre foi suficiente para transformar em verdade absoluta o que saia na Folha . O jornal era (e ainda é) leitura obrigatória para os “formadores de opinião” no Brasil.

Caracterizado por seu publisher, o liberal Otavio Frias, como uma empresa acima de tudo, o jornal nunca conseguiu esconder a quem mantivesse os olhos um pouco abertos que o anunciado jornalismo sério da Folha tinha muito de estratégia de marketing. Assegurar um status de imparcialidade (por mais frágil que seja este argumento) era (e é) bom para os negócios da Folha . Como acusa Juremir Machado da Silva em seu livro A miséria do jornalismo brasileiro, a cientificidade do Caderno Mais!, por exemplo, só existe porque existem intelectuais, de direita e de esquerda, que vão às bancas no domingo, pra acompanhar a nata da intelectualidade brasileira, que desfila no Mais! – e ajudar a Folha a vender 1 milhão de exemplares de sua edição dominical.

Não podemos, contudo, demonizar a Folha por ser uma empresa: ela simplesmente atua com a lógica do capitalismo e, enquanto não se fizer nada melhor, ela continuará sendo o jornal menos pior do Brasil. Respeitando sua própria lógica, a do mercado, ela acaba sendo interessante, na medida em que atende razoavelmente à fatia de mercado que escolheu. Desde que se acompanhe o jornal com os olhos bem abertos, é possível transforma-lo numa ótima fonte de pesquisa e conhecimento.

A questão principal aqui passa pela fragilidade de uma empresa que trabalha com conhecimento, com formação de subjetividades, e continua refém de fatores externos. A independência da Folha é garantida pelo mercado. E não precisamos recorrer a longos discursos pra dizer que se nossa independência depende de algo além de nós mesmos, ela é um simulacro de independência, uma pseudo-independência.

É esta pseudo-independência que começa a cair por terra com a crise financeira com a qual se depara a Folha . Forçada a demitir pessoal para cortar gastos (e pagar suas dívidas), a Folha corre sério risco de perder qualidade e, com isso, ver ameaçada sua posição de modelo de jornalismo sério no Brasil.

Casos como este da Folha fazem pensar. Será que vale a confiar a um jornalismo tão frágil a responsabilidade social que se espera da imprensa? Será que não está na hora de revermos nossos modelos, de repensarmos o jornalismo a partir de suas bases? São questões que ficam no ar…

***

Os textos do Observatório que abordam a questão Folha de São Paulo são: O BOCEJO DO JORNALISMO, de Cláudio Júlio Tognolli e A LONGA TRAVESSIA, de Marcelo Beraba, o Ombudsman da Folha .

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PARA ENTENDER MELHOR O PSICOTÓPICOS

Julho 29, 2004 · Deixe um comentário

Excesso de “posts” merece explicação sumária, então vamos lá.

Nos últimos três dias a produção foi intensa por aqui, portanto, organizemos a coisa com base na afinidade entre os textos.

Os textos COLAGENS DO DIA, JORNALISMO ON-LINE e ORKUT

MADE IN BRAZIL
falam todos de tecnologia, mas os dois primeiros relacionam-se mais diretamente um com o outro do que o terceiro com os demais. Todos eles oferecem links para textos do Observatório da Imprensa que serviram de ponto de partida para as questões desenvolvidas por estes cantos. Os três texto complementam, de certa forma, as discussões ocorridas nos “post” DEBATE- Parte II (que para ser compreendido exige a leitura de

DEBATE – Parte I e de DEBATE – Parte I – Resumo, que lhes deram origem).

O “post” POETAS E BURGUESES divaga sobre uma frase do Cazuza (“Enquanto houver burguesia não vai haver poesia), de forma descompromissada. E, falando em poesia, o “post” POEMA

DO DIA
traz um trecho de Leminski. Na linha dos devaneios poéticos, também estão os textos 1º ATO e 2ª Ato(a), bem como os comentários de Orlando Lopes (reproduzidos no “post” MURAL – Orlando Lopes) deixados nos Psicomentários do “post”

FRASE DO DIA, que traz um texto de Carisse Lispector. No mural (“post” MURAL – Convidados do Psicotópicos) também está o texto do Zé, sobre o Lula. Este texto, extraído do blogue do Zé.

Para entender melhor alguns dos últimos “posts” de caráter mais pseudo-teóricos, é bom dar uma lida em Até que ponto?, "AS RAZÕES DO ILUMINISMO": idéias suscitadas e nos debates sobre tecnologia, citados acima.

Se alguém quiser seguir nas leituras esdrúxulas, o caminho é o “post” FIM DE SEMANA.

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COLAGENS DO DIA

Julho 28, 2004 · Deixe um comentário

“Quando constatamos o fato de que milhares de pessoas, desempenhando funções diferentes, unem-se, através do ciberespaço, com o objetivo de produzir não só programas de computador, mas conhecimento na forma, efetiva, de propriedade social, então, não se trata mais de troca mercantil e nem mesmo de mercadoria. Não se trata mais da separação entre os produtores diretos e os produtos e os meios do seu trabalho, não se trata mais do trabalhador existente apenas como mera subjetividade coisificada a serviço de outrem. As novas relações entre os diferentes trabalhadores (o programador, os diferentes programadores, os tradutores, os desenvolvedores, no caso do software livre), relações de cooperação ampliada e potencializada pelos novos meios de comunicação virtual, garantem novas relações entre esses diferentes trabalhadores e seus produtos e meios de trabalho. Esses produtos aparecem desde já, desde a sua gênese, como produtos sociais de uma coletividade. E o seu trabalho também aparece como atividade dotada de sentido, atividade livre, auto-atividade.

Atividade dotada de sentido e produto do trabalho não mais afastado de quem o produziu são sinais muito claros de mudanças radicais em relação à sociedade generalizada de mercadorias. Isso significa uma espécie de desentranhamento progressivo dos trabalhadores a partir da construção de novas relações sociais. Esse é, sem dúvida, um arranjo produtivo muito diferente da produção em bases capitalistas, na qual as mercadorias assumem o caráter de seres sociais e as pessoas assumem o caráter de coisas materiais. Eis, portanto, o grande desafio posto para movimentos como Software Livre e Wikipedia: será possível copiar esse modelo para as outras esferas da vida social?

Se a resposta, na prática muito mais do que na teoria, for “sim”, então, a sociabilidade do capital está com os seus dias contados…”


(Antonio de Pádua Melo Neto , Economista, mestrando em Sociologia pela Unicamp)

O perfil do universitário hoje é de alguém que lê o menos possível, foge de debates sobre quaisquer assuntos e, na maioria, é incapaz de construir uma crítica consistente.

((Fábio Davidson, Estudante do 2º ano de Jornalismo, São Paulo))

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JORNALISMO ON-LINE

Julho 28, 2004 · Deixe um comentário

Estava lendo há pouco uma matéria do Observatório da Imprensa sobre jornalismo on-line e um trecho me chamou a atenção (clique

aqui para ler o texto)
. Falando sobre direitos autorais, o autor do texto escreve: “Uma reportagem virtual é submetida a um vertiginoso processo de desmembramento e recombinação a partir do momento em que é publicada”. E escreve mais, no parágrafo seguinte: “Este processo deverá se tornar ainda mais intenso na medida que aumentar o uso de narrativas não-lineares em textos jornalísticos. A não-linearidade dá a cada leitor a chance de organizar a leitura da matéria segundo seus interesses ou necessidades. Como a narrativa não-linear na web permite o uso simultâneo de várias mídias (caráter multimídia), o roteiro final seguido pelo leitor pode ser bem distante daquele originalmente concebido. Nestas condições, a autoria original perde muito da relevância e torna-se peça de um processo de criação em novos moldes”.

Impossível não lembrar de Rayuella (O jogo da amarelinha), livro do escritor argentino Júlio Cortazar. Em O Jogo da Amarelinha Cortazar inovava, compondo o livro com uma série de capítulos aos quais ele chamava “prescindíveis”. Eram capítulos que, se não fossem lidos, não comprometiam o andamento da narrativa. Contudo, deixar de ler os capítulos, era fechar-se a uma série de possibilidades que eles abriam pois tratavam-se, basicamente, de reflexões perspicazes sobre filosofia, arte e estética.

Na Internet, o hipertexto dá uma idéia dos caminhos possíveis. Para um texto que utiliza-se dos linkas para contar uma história no formato não linear, os caminhos a serem tomados são inúmeros, proporcionais, geralmente, ao interesse do leitor. E o melhor: isso tudo sem os enormes gastos que um veículo convencional, impresso, exige.

Talvez por essas e por outras características, a Internet seja hoje o espaço ideal para tudo aquilo que é alternativo transmitir sua mensagem. Talvez por isso os Fanzines percam, dia a dia, mais espaço para os blogues.

Como fala o texto do Observatório, a informação da Internet torna-se mais valiosa na medida em que circula. Isso escapa, inclusive, à lógica capitalista do consumo, da compra, da posse do objeto para deleite exclusivo. A Internet funciona mais em termos de fluxos do que em termos de apropriação.

Vale a pena dar uma conferida no texto e refletir um pouco sobre a possibilidade de se utilizar tecnologias como essa para reinventar a forma de conhecer. Para pensarmos num saber menos individualizado (aquele do pensador solitário, lendo e escrevendo em seu escritório) para algo mais intersubjetivo, mais próximo à razão comunicativa.

Não dá pra deixar de lembrar o “post” sobre o setor hippie do Ministério da Cultura e seu representante otimista, falando que, com as novas tecnologias, cria-se a partir da obra do outro o tempo inteiro. Essa é uma questão que assustaria os românticos e seus gênios, mas algo que merece ser pensado com carinho e que exige até mesmo uma auto-análise de nossa parte: o que vale mais, a glória de ter o NOSSO trabalho reconhecido (a lógica das patentes tão cara aos capitalistas norte-americanos) ou contribuir para uma obra coletiva, que resulte num bem para um número incontável de pessoas? O que é mais importante, ser Bill Gates, com mais dinheiro do que é possível gastar em 20 vidas, ou colaborar para que o Linux se torne cada vez melhor e todas as pessoas tenham o direito de usar um sistema operacional gratuito, contribuindo, de verdade assim, para a inclusão digital?

Sei que a discussão sobre tecnologia do Psicotópicos acontece em outro âmbito, mas não poderia deixar de falar nessas coisas, pegando carona – e criando em cima de – no texto de Carlos Castilho.

***

Para ler mais sobre tecnologia e sobre a batalha de Bill Gates contra o software livre (Linux e afins), dêem uma olhada em outro artigo do Observatório: Questões

para "abrir a cabeça"
, de Antônio de Pádua Melo Neto.

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ORKUT MADE IN BRAZIL

Julho 28, 2004 · Deixe um comentário

A invasão brasileira no Orkut está dando o que falar. O serviço, criado no início do ano por um turco chamado Orkut Buyukkokten, é formado por 43% de usuários brasileiros, contra 23,5% de estadunidenses, apesar de haver apenas 20 milhões de usuários de internet no Brasil contra 150 milhões nos EUA.

A avalanche de brasileiros incomoda o pessoal do Tio San porque os brasileiros escrevem em português no Orkut e os yankees se sentem excluídos.

Para saber mais, clique aqui e leia a matéria do Observatório da Imprensa sobre o assunto.

Cá entre nós…

Como usuário recente do Orkut, devo dizer que acho bom e natural os brasileiros se comunicarem em português. Se o objetivo é conversar com brasileiros, nada mais normal do que falarmos em nossa própria língua. Nem todos por aqui têm condições de estudar inglês e, mesmo que tivessem, ninguém é obrigado a fazê-lo! Antes mais pessoas fossem estudar alemão, francês, italiano, mandarim! Seria uma forma de evitar que o “american way of life” se torne o único caminho.

Só pra retomar aqui aquela discussão sobre tecnologia, acho que o exemplo do Orkut deve ser levado em consideração para pensar nas possibilidades de resistência que uma coisinha tão inofensiva quanto o Orkut pode oferecer. Dá pra lembrar de Chiapas, dos Zapatistas, utilizando a web pra pedir socorro.

Outra fato interessante é que, mesmo em se tratando de um ato inconsciente da parte dos brasileiros, a atitude mostrou o quanto os norte-americanos se sentem acuados quando perdem a posição central que SEMPRE ocupam.

Se eles se sentem por fora, excluídos das nossas discussões, às quais têm “tanto interesse” em acompanhar; se dão tanto valor a isso; se isso é tão fundamental; se é assim, que aprendam nossa língua, que busquem entender melhor a nossa cultura, nosso modo de ser. Quanto queremos lê-los, temos que fazer isso!

Eu não queria entrar nesse tipo de discurso, mas é que é impossível não se sentir indignado diante da arrogância desse povo. Parece-lhes insuportável a idéia de não poderem ocupar TODOS os espaços. Dapois da lua, o Iraque. Depois do Iraque, o Orkut. Depois do Orkut, o que? Nossos corpos?

Ceder nessa pendenga seria idiotice. Seria curvar-se, mais uma vez, à vontade deles, à vontade da minoria poderosa. Em poucos momentos temos a possibilidade de resistir, de garantir nosso espaço. Este parece-me ser um desses momentos. E aqui quem fala é o meu lado que ouve Mundo Livre S/A e que acompanha o José Arbex Jr. Meu lado que cantou “Pra não dizer que não falei das flores” ao lado de 8.000 pessoas no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Aquele lado que fica puto com os EUA ou com qualquer outro país de merda quando vê situações desse tipo. Fica puto não porque ame o Brasil cega e doentiamente, mas porque odeia a arrogância de quem só consegue ver o próprio umbigo. Quando esse comportamento diz sobre o país que é a maior potência do mundo, pior ainda!

Lutemos pela diversidade, por nosso direito de falar em português e aprendermos a língua que quisermos e de procurar saber da cultura que nos interessar. Não é uma questão de amor à pátria, mas de gotas de amor próprio.

E pronto! Fui panfletário mesmo! Dane-se!

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PSICOTÓPICOS VIRA OBJETO DE ESTUDOS

Julho 28, 2004 · Deixe um comentário

Suspeito que fui tocado por Narciso, pois não consigo controlar a vontade de escrever aqui que a discussão sobre tecnologia que eu e o Zé (e quem mais quiser) estamos desenvolvendo por estas bandas vai virar objeto de estudos na disciplina de Comunicação Comparada, no 2º período de Comunicação Social da J.Simões.

É importante ver que o Psicotópicos está dando certo e que, se não todos, pelo menos alguns diálogos, começam a fazer algum sentido.

Ver que uma discussão começada num “post” pode ultrapassar os limites do blogue me deixa feliz, pois aponta para novas possibilidades. O mais curioso disso tudo é que o texto que chamou a atenção de Luziane, a professora de Comparada, tem o título de “O Inútil”.

Mas já que comentamos possibilidades de ampliar a conversa, queria dizer que é possível que consigamos articular por estes lados, uma palestra do Zé, O Outro – atualmente, meu interlocutor mais ativo aqui no Psicotópicos – sobre tecnologia. A proposta, devo dizer, partiu dele e – ele mal sabe – já comecei a sondar aqui qual a possibilidade disso vir a acontecer de verdade. Percebi hoje que há grandes chances de rolar uma debate não-virtual antes mesmo do que a gente esperava. Aí, vai depender da disponibilidade dele, do Zé.

São boas notícias que, vez ou outra, dão as caras. Sempre utilizei aqui uma “filosofia do pé atrás”, pra evitar empolgações exageradas e, conseqüentemente, posteriores frustrações. Mas, apesar disso, acho que na hora de comemorar, a gente comemora, porque se não for pra fazer festa, a vida perde um pouco da graça. Entonces, parabéns pro Psicotópicos!

***

E Zé, só pra constar, suas aparições foram fundamentais para que o Psicotópicos ressurgisse das cinzas. Interação é fundamental pra impedir que as coisas que “posto” aqui não voltem para a gaveta.

Para Luziane, Stella, Orlando, Layla, Docinho, João… e pra todo mundo que passa por aqui e ajuda a manter a conversa nos Psicomentários: um abraço! Valeu, galera!

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POETAS E BURGUESES

Julho 27, 2004 · Deixe um comentário

Ontem estava discutindo com uma amiga a seguinte frase de Cazuza (é, ta certo, Cazuza anda em alta por aqui e por outros cantos, mas vá lá): “Enquanto houver burguesia, não vai haver poesia”. A frase soa estranha quando lembramos que a poesia de Cazuza veio, em boa parte, das experiências suscitadas pela burguesia da qual ele – por mais que rejeitasse – saíra.

Fiquei matutando sobre isso o resto da tarde e fui longe. Lembrei dos primeiros burgueses, que compravam as obras dos pintores renascentistas. Lembrei de grandes nomes da poesia como Baudelaire, Fernando Pessoa, Blake e esse povo, que viveram no auge da sociedade burguesa, mesmo quando marginalizados por ela. Acho que não dá pra negar que tanto do seio da burguesia quanto do seu oposto – seus críticos – surgiram grandes poetas. Saindo deste campo, chegamos a nomes como Flaubert e Balzac, que construíram suas obras com base na crítica à sociedade burguesa.

Acho que a burguesia pode até feder (apesar dos perfumes franceses), mas dizer que ela é incompatível com a poesia, acho exagero. Talvez excesso de liberdade poético-panfletária – e paradoxal – da parte da Cazuza.

Mas só gente chata – ou em momentos de chatice – pára para cobrar coerência de Cazuza. Esses paradoxos ajudam a construir a figura que ele foi e não devem ser levados muito a sério. Ajudam a recolocar os mitos em seus devidos lugares: o de seres humanos, perfeitamente imperfeitos, complexos e inexplicáveis.

A vida não deve ser posta em altares, para ser venerada. Veneremos o ato de viver enquanto dinamismo. A vida não é estática, não cabe em esquemas. Os pedestais exigem estátuas e, se há uma coisa que Cazuza não foi, esta coisa é uma estátua.

Obserrvação para os mais próximos

E chega de Cazuza por uns tempos. Carissa e Layla: vamos pegar The Doors pra assistir, vamos falar de Led Zeppelin, Ramones, Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix… vamos falar de outra coisa: já tem gente demais falando do Cazuza… e é isso…

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DEBATE – Parte II

Julho 27, 2004 · Deixe um comentário



Apresentação das Armas

Começa a partir deste “post” o segundo round do debate sobre tecnologia, com base no texto de Bustamente. Abaixo, o trecho do texto a se discutido.

Combate

SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO SOB A ÓTICA DE JAVIER BUSTAMANTE

ROUND 2

A outra ponte

Os cientistas foram educados principalmente para desenvolver teoria e inovação, mas nem sempre têm uma percepção ética da responsabilidade que implica uma mudança gigantesca da realidade humana. Falava-se antes que as idéias mudavam o mundo. Hoje, a forma de mudar o mundo é através da técnica e da tecnologia. Robert Moses, o arquiteto que deu à cidade de Nova York o desenho que tem atualmente, idealizou uma cidade para as classes mais ricas e favorecidas. Projetou então 300 pontes em Long Island para dar uma imagem especial da metrópole. Quando essas edificações foram analisadas, constatou-se que faziam uma discriminação importante, já que tinham uma altura livre de apenas três metros. Foram feitas apenas para carros, não para o transporte público – quem não tinha carro, não entrava na área. Assim, muitas vezes, quando achamos que temos que reagir contra uma política de discriminação, percebemos que a tecnologia é um elemento neutro, uma coisa que não encarna opções religiosas, políticas, ideológicas etc. Por isso temos que prestar uma atenção especial aos projetos técnicos. Eles são tão políticos quanto as próprias leis.

O Gongo

Se pegarmos a primeira frase do texto, podemos pensar no exemplo clássico de Frankstein, a criatura que perde o controle, a ciência que fica pequena diante de sua obra. Acredito que a necessidade de manter o olhar crítico sobre a tecnologia foi apontada neste trecho por Bustamente. O exemplo de Nova York mostra isso: é um alerta. Contudo, Bustamente reconhece também o importante papel que a técnica e a tecnologia exercem nas modificações da sociedade contemporânea. O sociólogo Michel Maffesoli tem uma idéia interessante para representar o período pelo qual passamos. Para ele, vivemos uma fase de retorno do arcaico, de ressurgimento dos comportamentos e formas de relacionar-se com o mundo que marcavam a realidade pré-moderna. Seria um período no qual a razão perde espaço para o que ele chama de “imaginal”. Maffesoli acredita que os grupos hoje se formam especialmente por um repertório imagético comum e não pela convergência de idéias. Apesar desse arcaísmo no modo de ser e relacionar-se, Maffesoli diz que as conquistas técnicas da modernidade são aproveitadas. Simplificando muito, é como se fôssemos aborígines que usam laptops. O pensamento de Maffesoli pode ser atacado de diversas maneiras e ângulos – até porque, sua análise toma por base, primeiramente, o contemporâneo, o contingente, que muitas vezes nos escapa e inviabiliza uma análise mais aprofundada. Contudo, gostaria de deter-me nesse aspecto da perda do status privilegiado da razão na organização do mundo e da importância da técnica nesse contexto. Ousando um pouco – porque aqui não temos tantos compromissos assim – eu arriscaria aproximar Habermas de Maffesoli para dizer que a razão que perde espaço é a razão comunicativa, já que as esferas do mundo vivido, o espaço público, foram colonizadas pela razão instrumental, a razão da técnica e da tecnologia. Pensando com Habermas, nosso dever, de certa forma, seria lutar por recolocar a razão comunicativa no seu devido lugar, tendo a razão instrumental a seu serviço, e não o contrário. Há uma necessidade, como aponta Bustamente (e como eu tenho enfatizado aqui) de colocar a tecnologia no centro da discussão do espaço público.

Só que aqui surge um paradoxo aparente que tem me incomodado bastante nestas minhas leituras mais recentes de Habermas. Não há como negar que hoje há uma perda da capacidade/competência lingüística nas pessoas. Muitas coisas deixam de existir porque não podem ser ditas/explicadas/descritas (e aqui nos aproximamos do segundo Wittgenstein). Para que o diálogo aconteça é preciso haver um consenso sobre um certo número de pressupostos aceitos por todos os envolvidos no diálogo. Pressupostos comuns são difíceis de encontrar no mundo contemporâneo, mas existem. Parece-me que muitas vezes a dificuldade das pessoas está em conseguir afinar os discursos, encontrar intersecções — “nós” — entre eles. E aí chegamos, novamente, ao “querer dizer” do Wittgenstein, e voltamos a um tema já repisado aqui no Psicotópicos que é a necessidade de buscar compreender o outro, ver/sentir como o outro. O texto sobre Dança com Lobos (Dança com o Outro) apontava nessa direção.

A minhas questões passam, então, por dois caminhos: 1) como conseguir devolver à razão comunicativa seu espaço se primeiro é necessário aprendermos a compreender e fazer-se compreender para exercer essa razão comunicativa?; 2) como a técnica – que hoje pode funcionar como elo de ligação entre diferentes “tribos” – pode ajudar a diminuir as distâncias entre um discurso e outro, decifrando o que cada um “quer dizer”?

Só lembrando, esses foram os pensamentos/dúvidas que o texto em discussão suscitou em mim. Há outros caminhos a serem tomados a partir dele, façam suas escolhas.

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